PdS: PME sofrem com comércio online e compras na China Continental
may25
As estatísticas oficiais dão conta de um declínio na faturação, sobretudo no sector do retalho, com as pequenas e as médias empresas (PME) a sofrerem cada vez mais. A situação é melhor para os negócios que apostam mais em turistas, mas continua longe dos valores anteriores a 2019, dizem as fontes do sector contactadas pelo PONTO FINAL.
Terence (nome pelo qual prefere ser identificado), da loja Vintage Market, diz que os tempos não têm sido tão fáceis para o negócio. Abriu em 2014 e vende roupa em segunda mão, escolhida por si e vinda, sobretudo, dos Estados Unidos e do Japão, apesar de ter também à venda acessórios do mundo inteiro. “Temos estado estáveis todos os anos, mas o principal problema é que há muitos residentes que preferem gastar o dinheiro noutros sítios, em vez de Macau”, refere.
Na sua opinião, tudo mudou durante a pandemia. “Apenas estamos com um nível de negócio mediano nestes dois últimos anos”, afirma. No geral, diz o retalhista, é uma questão que tem afectado os pequenos e médios negócios de Macau, sobretudo aqueles que estão ligados ao retalho. “Tem grande impacto quando todos os residentes optam por ir para fora do território gastar”, diz.
O que está a acontecer?
Para o economista Henry Lei, há duas importantes razões que explicam estes resultados. Por um lado, há uma mudança no padrão de consumo. “As pessoas preferem comprar online, ao invés de fazê-lo presencialmente”, refere, explicando que isso, forçosamente, afecta as PME. “As pessoas começaram a ganhar o hábito de comprar online e tornámo-nos muito familiarizados com os vários canais de compras online”, diz Henry Lei.
Em segundo lugar, com a economia a não se situar ainda nos mesmos valores que estava antes da pandemia de COVID-19, as pessoas “ganham menos, especialmente aqueles que trabalhavam anteriormente no sector do jogo”. Por isso, com a perda do poder de compra e, no geral, com a menor confiança no consumo, as pessoas tornaram-se “mais conservadoras nas compras”, prejudicando a situação para as pequenas e médias empresas. “Não queremos gastar e, se o fazemos, compramos online”, resume o economista.
Depois, como as pessoas se encontraram confinadas no território durante essa época, hoje em dia, assim que têm uma oportunidade procuram sair e fazer algo interessante. “É por isso que regressamos mais frequentemente à China continental”, diz. Além disso, surgiram, entretanto, algumas medidas que facilitaram a deslocação ao outro lado da fronteira. “Foi nesta altura que surgiram algumas políticas relacionadas com a Grande Baía, para melhorar a circulação e a passagem das fronteiras”, refere. “Podemos agora tentar conduzir o nosso próprio veículo do outro lado da fronteira”, diz, a título de exemplo.
No geral, conclui, esta maior conveniência nas deslocações aliada ao rápido desenvolvimento do sector do retalho na China Continental não é bom para as pequenas e médias empresas em Macau.
Mais dificuldades hoje do que antes da pandemia
Na opinião do economista José Luís de Sales Marques, as dificuldades que as pequenas e médias empresas estão a enfrentar em Macau hoje são superiores às que existiam durante, ou até antes da pandemia.
Por um lado, a abertura de um mercado à volta de Macau tem sido um dos grandes responsáveis pelas dificuldades das PME locais. “As cidades da Grande Baía recebem um fluxo de residentes de Macau que vão consumir para lá, adquirir produtos, ir a restaurantes, recorrer a serviços”, diz, realçando que, muitas vezes, os preços são bem mais competitivos do outro lado da fronteira. Aliás, no território, é difícil conseguir vender produtos a preços tão baixos como na China Continental. “O elevado valor de rendas é um elemento de grande falta de elasticidade nos preços e depois temos o problema da mão de obra, importada do exterior”, afirma, explicando: “Uma vez que temos dificuldades em ceder essa mão de obra, que é mais acessível, e, por outro lado, sabemos também que o custo do investimento em certos tipos de estabelecimentos, nomeadamente restaurantes, é elevado, tudo custa caro aqui, retorno do capital investido é complicado”.
Mas há também outros factores. Por exemplo, as “mudanças de paradigma no que diz respeito ao jogo”, que resultaram numa diminuição do peso do sector VIP na área. “Há muitos trabalhadores ligados a esse sector do jogo que estão numa situação económica muito distinta daquela que tinham em 2019 quando o negócio ia de vento em popa”, refere. Por isso, internamente, há agora uma “camada da população cujos rendimentos não são os mesmos que tinham antes”. E, dantes, muitas PME, sobretudo as ligadas à restauração e a alguns produtos considerados caros, estavam muito associadas a esse sector. “Algumas dessas empresas viviam muito à custa dessa clientela, que costumava frequentar esses sítios e consumia, por vezes, milhares de patacas”, destaca.
O turismo não compensa
Diogo Vieira, gerente da Portugália Macau, cervejaria que faz parte do Grupo Portugália, não se queixa do negócio, dada a sua localização. “A marca detém duas empresas: a Portugália e a Manteigaria, que abriu em Janeiro deste ano”, diz.
No território há já 10 anos, o arranque da cervejaria não foi fácil. “Foi o posicionamento da marca e ajustamento à cultura local, tivemos de nos adaptar”, refere. Depois dessa fase, tudo começou a correr bem até à pandemia de COVID-19. “Conseguimos aguentar o barco, mas, mesmo no fim da pandemia, houve a necessidade de acabar com o parceiro local, que era senhorio do espaço, e tivemos de procurar outro sítio”, conta.
Ao mudarem para um local mais próximo da Rua do Cunha, na Taipa, no fim de Abril de 2023, o negócio tornou-se melhor. “Estamos mais próximos de um foco de turismo”, diz.
Na realidade, o gerente considera que é nas zonas residenciais que as pequenas e médias empresas mais sofrem. “Onde se sente maior dificuldade é em zonas onde não há tanto turismo”, diz. “As 600.000 pessoas de Macau não são de todo suficientes para tanta oferta”, destaca. Por isso, negócios com uma componente mais virada para o mercado local estarão a passar “mais dificuldades”.
Há algumas vantagens para os pequenos negócios mais vocacionados para o turismo, quando comparados com as outras PME. “Esses têm lucros operacionais razoáveis, estão localizados em zonas turísticas e ajuda a compensar a falta de procura dos residentes”, refere Sales Marques. Ainda assim, mesmo nestes casos, há diferenças em relação ao período pré-pandémico. “Há uma nova tendência no mercado do turismo, uma certa camada de turistas mais jovens, mais ligados às redes sociais, que não vêm a Macau para consumir muito, é uma visita relativamente económica”, conta. Acresce a isso a “situação económica que se vive na China Continental, com a retoma da confiança do consumidor ainda a não chegar aos níveis pré-pandemia e uma certa retração quanto ao volume de despesas de cada turista, em média”.
O que pode ser feito
Há algumas medidas que têm sido adoptadas pelo Governo ao longo dos últimos anos e há novos planos de apoio a caminho. Por exemplo, em Abril deste ano, no âmbito das Linhas de Acção Governativa, o Executivo lançou um plano de bonificação de juros de créditos bancários para as pequenas e médias empresas. Outra das medidas do foro empresarial apresentada visa a expansão dos “Serviços de Apoio à Digitalização das PME 2025”, com o aumento das actuais 900 vagas para 1500.
Na opinião de Henry Lei, algumas iniciativas do Governo, como “a distribuição de vouchers de consumo pelas pessoas, que apenas podem ser usados no fim-de-semana, podem ajudar”, mas são apenas transitórias. Há, no entanto, outras medidas que podem ser mais eficazes. “As PME devem actualizar-se e procurar melhorar os seus serviços, introduzindo serviços de qualidade para serem mais competitivas”, diz.
Um dos problemas passa por as PME estarem a vender o mesmo que se consegue obter online em determinadas plataformas, mas ao dobro do valor. “Precisam de mudar isso, talvez possam oferecer aos consumidores melhores serviços de pós-venda, uma maior qualidade do produto, para reforçar a sua competitividade”, diz. Ainda assim, admite, trata-se de um processo que leva tempo. “As PME locais também podem oferecer serviços de e-commerce, para poderem, também elas, vender online”, diz. “Uma das grandes vantagens das PME em relação às plataformas de venda online é a possibilidade de receber o produto mais rápido”, acrescenta. E, se assim for, os consumidores mais facilmente escolherão comprar online às PME locais. Ainda assim, admite, é muito difícil às PME competirem com determinadas plataformas online que até já providenciam serviços de “entrega gratuita” em Macau, independentemente do volume de vendas. “As PME têm de se diferenciar, para pedir uma melhor margem pelo serviço que garantem”, destaca.
Também o economista Sales Marques acredita que há que haver uma mudança das próprias PME. “Têm de se adaptar às novas condicionantes do mercado e, se calhar, algumas vão desaparecer, mas outras terão capacidade para se adaptar”, declara.
O analista defende ainda que as PME com “características que as diferenciem” têm uma maior hipótese de sobrevivência. “Aquelas que são muito genéricas, que restam no mercado apenas porque vendem barato, cujo mercado são trabalhadores não residentes ou outros com pequeno poder de consumo, que hoje em dia vão, sobretudo ao fim-de-semana, consumir para Zhuhai e arredores, esse tipo de empresas não tem grandes hipóteses no futuro e terá de se reconverter”, defende.
https://pontofinal-macau.com/2025/05/13/pme-sofrem-com-comercio-online-e-compras-na-china-continental/
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