“Desequilíbrios” marcaram retoma económica

 31/12/24

O ano de 2024 começou com “toda a confiança”, pelo menos, por parte do Chefe do Executivo. Depois de três longos anos de covid-19, que levaram o território a mergulhar numa profunda crise económica, este novo ano, sem restrições nas fronteiras, prometia. Contudo, o que se verificou ao longo dos meses foi que os “desequilíbrios” teimavam em não desaparecer: se, por um lado, as zonas turísticas faziam melhores negócios – ainda que se queixassem de que estavam abaixo dos números dos anos anteriores -, por outro, muitas pequenas e médias empresas (PME) em zonas residenciais fechavam portas ou davam conta das dificuldades que enfrentavam.

Entre “oportunidades e desafios”, Macau “será ainda melhor e mais brilhante em 2024”, anteviu Ho Iat Seng na mensagem de Ano Novo, marcada por um tom francamente optimista. O líder da RAEM acreditava que o território iria “consolidar a tendência positiva da recuperação económica” e promover “novos avanços” na estratégia de “diversificação adequada” da economia.

Depois de um ano em que a economia recuperou a dinâmica de crescimento, a “confiança” em Macau crescia em “todos os sectores sociais”, considerava o Chefe do Executivo. Ho Iat Seng prometia, simultaneamente, que o Governo iria acelerar a diversificação adequada da economia e promover pragmaticamente a construção de Hengqin.

Já a Autoridade Monetária, no seu primeiro relatório de “Revisão da Estabilidade Monetária e Financeira” de 2024, indicava que a economia da RAEM deveria registar um crescimento “notável”, embora a um ritmo mais lento devido à elevada base de comparação. O organismo antevia que os esforços do Governo para fomentar o turismo não relacionado com o jogo e o lançamento de novas instalações e grandes eventos pelas concessionárias de jogo iriam impulsionar a retoma da procura externa.

Os bons augúrios não tardaram em dar frutos. No Ano Novo Chinês, Macau recebeu cerca de 1,36 milhões de visitantes, volume que estava próximo dos níveis de 2019. A média diária de entradas, superior a 169 mil, foi também bastante acima do esperado pela directora dos Serviços de Turismo, Helena de Senna Fernandes, que tinha apontado para 120 mil.

Apesar dos números, contudo, os pequenos negócios começavam a ressentir-se com os visitantes que ainda não estavam dispostos a abrir os cordões à bolsa, com a mudança dos hábitos de consumo dos turistas e ainda com a dispersão dos residentes, que começaram a optar por consumir no Interior da China, onde os produtos são mais baratos.

O presidente da União das Associações dos Proprietários de Estabelecimentos de Restauração e Bebidas de Macau, Chan Chak Mo, dava conta de que os negócios dos restaurantes nas zonas turísticas e nas áreas residenciais sofreram um forte contraste durante o Ano Novo Chinês. Segundo disse, dos 150 comerciantes que contactou, mais de 30% nas zonas turísticas disseram que os negócios melhoraram em relação ao ano anterior, ao passo que mais de 10% indicaram que as vendas pioraram. Em sentido inverso, nas zonas habitacionais, mais de 30% dos comerciantes disseram que os negócios pioraram, contra mais de 10% que apontaram para melhorias.

Já o deputado José Pereira Coutinho alertava que cada vez havia “mais dificuldades de sobrevivência” entre determinadas camadas da população e um “fosso entre ricos e pobres”. Alertando que na Zona Norte da cidade, “as pessoas não vivem bem”, defendeu que era preciso o Governo desviar os visitantes e garantir que eles despendessem dinheiro no território. O deputado insistia que eram precisas medidas para ajudar os lojistas com negócios fora do circuito turístico da cidade, nomeadamente incentivos fiscais, subsídios e programas de formação e capacitação empresarial.

Ao mesmo tempo, o desemprego caía para o nível mais baixo em quatro anos. A taxa geral de desemprego na RAEM recuou para 2,2% entre Novembro e Janeiro, atingindo assim o nível mais baixo desde o início da pandemia.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) considerava que o “ritmo desigual” de recuperação dos sectores jogo e não jogo carecia de um “apoio contínuo” do Executivo, defendendo ainda que, a médio prazo, a prioridade deveria ser a diversificação económica, e, para isso, Macau precisava de “reformas abrangentes” quanto à integração na Grande Baía. O organismo internacional apontava que a economia de Macau deveria crescer 13,9% este ano, e que em 2025 deveria voltar ao nível registado antes da pandemia.

Entretanto, a diversificação “1+4” começou a despertar interesse dos EUA, com o Departamento do Comércio norte-americano a considerar que as empresas poderiam explorar “oportunidades” na RAEM em áreas não relacionadas com o jogo, como a saúde ou a construção “inteligente”. No seu novo “Guia Comercial” sobre Macau, o organismo destacava o modelo de diversificação económica “1+4” e os planos para Hengqin.

Por seu turno, o vice-presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, Edmund Ho, alertava para alguns “pontos fracos” que desafiavam o desenvolvimento de Macau. “Além da pouca população e da escassez de quadros, muitas pequenas e médias empresas continuam a operar com dificuldades após a pandemia, enquanto o desenvolvimento diversificado da economia possui uma base relativamente fraca”, exemplificou, numa sessão de balanço das duas reuniões magnas realizadas em Pequim. Para Edmund Ho, importava “melhorar e optimizar de forma abrangente” o ambiente de negócios de Macau” e alcançar “grandes avanços” nas políticas sobre quadros qualificados.

Dias depois, a Associação Económica alertava que as deslocações transfronteiriças dos residentes para o Interior da China e Hong Kong estavam a ter impacto no consumo local, antevendo que o consumo interno poderia vir a sofrer ainda mais ao longo do ano. Ademais, sublinhava que havia ainda “desigualdades” em termos de recuperação económica.

 

PME tentaram “sobreviver”

Preocupados com os negócios “pouco satisfatórios” na Zona Norte da cidade, alguns deputados apelaram ao Governo que apoiasse as PME no processo de transformação comercial. Por sua vez, o presidente da Aliança para Desenvolvimento de PME alertava para a discrepância evidente entre o ritmo da recuperação do turismo e a situação económica nas zonas habitacionais onde, segundo observou, algumas lojas decidiram fechar portas permanentemente.

Entretanto, as autoridades davam conta de que o programa de consumo lançado na Zona Norte poderia vir a ser alargado a mais áreas da cidade – o que veio posteriormente a acontecer. Mas, a ajuda às PME e benefícios ao consumo continuavam a ser pedidos dos deputados. Numa sessão na Assembleia Legislativa, vários foram os que alertaram mais uma vez para o desequilíbrio na retoma da economia, pedindo benefícios ao consumo e medidas específicas de apoio às PME.

Este jornal dava, entretanto, conta, das dificuldades das PME, que já pediam mais crédito para “sobreviver” do que para crescer. Estavam cada vez mais endividadas para conseguir ter fundos de maneio.

Para apoiar as pequenas e médias empresas a melhorarem as suas condições operacionais e enfrentarem dificuldades financeiras, bem como para incentivar e apoiar os jovens a criarem os seus próprios negócios, o Governo prorrogou o prazo do “Plano de Apoio a PME” e do “Plano de apoio a jovens empreendedores”, permitindo que tanto as PME como os jovens empreendedores pudessem ter apoio financeiro reembolsável e sem juros.

Contudo, as dívidas em atraso das PME quadruplicaram num ano. O valor dos empréstimos em dívida não pagos pelas pequenas e médias empresas aos bancos atingiu quase 4,6 mil milhões de patacas no final de Junho, o que representou um aumento anual de 295%, segundo dados da Autoridade Monetária.

Já depois de Sam Hou Fai ter anunciado a sua candidatura a Chefe do Executivo da RAEM, foi alertado, em diversos encontros, para os obstáculos enfrentados pelas PME. O antigo presidente do Tribunal de Última Instância disse que irá “estudar profundamente” formas de apoiar as pequenas e médias empresas na inovação, transformação e evolução. Segundo reconheceu, as PME necessitam de ajuda para superar as dificuldades perante um cenário de “recuperação económica insuficiente e desequilibrada”.

Face aos desequilíbrios económicos, este jornal procurou perceber como estavam os rendimentos dos residentes. Em apenas três meses, aumentou o número de trabalhadores a tempo completo que auferiam salários mais baixos. Segundo dados oficiais, no terceiro trimestre, 87.900 trabalhadores ganhavam menos de 12.000 patacas, representando 26% da população empregada a tempo inteiro, estimada em 335.000 pessoas. Por outro lado, 53.600 trabalhadores ou 16% recebiam 40.000 patacas ou mais – este escalão sectorial cresceu 11,2%. A Direcção dos Serviços de Estatística e Censos ressalva, contudo, que a subida se deveu “principalmente a alguns ramos de actividade económica terem atribuído o 13º mês de salário ou as participações nos lucros.

A Assembleia Legislativa aprovou o Orçamento de 2025 entre vários pedidos de deputados para subidas salariais na função pública e para os professores, mais iniciativas de “grande prémio” para o consumo, aumento da pensão para idosos, e mais apoios às PME e ao emprego de residentes.

Mais de 61% dos 1.110 trabalhadores locais inquiridos pela Federação das Associações dos Operários de Macau entre Junho e Novembro garantiram que as suas famílias “não conseguiram beneficiar da recuperação económica”, continuando a enfrentar dificuldades financeiras, incluindo mesmo a redução de rendimentos. Cerca de 80% dos entrevistados “apelaram fortemente” ao Governo para implementar mais medidas de apoio económico, um repto que também foi corroborado pela FAOM, por forma a atenuar a pressão dos residentes na vida quotidiana.

https://jtm.com.mo/local/desequilibrios-marcaram-retoma-economica/

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